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"À noite notícias de casa,
novidades, saudades e beijos..."
Por volta dos meus 22 anos, fui passar as férias de fim de
ano com minha familia em Governador Valadares e no último dia do mês de março embarquei
de volta pra São Paulo no ônibus número 90 da Viação Transcolim. Tinha passado o dia
jogando bola às margens do Rio Doce e, por estar cansado, pensei que fosse dormir com
facilidade. Qual nada. Saímos de Valadares às 5 da tarde e por volta das 9 da noite
paramos pro café em Realeza. Comi um churrasco de gato, tomei uma ampola dupla de
caipirinha e lá vamos nós pra estrada. Já estava meio adormecido quando, de repente,
uma mistura de barulho de motor , pneus arrastando no asfalto, gritos, e não era pesadelo
não. Era real. Quando percebi o que tinha acontecido já estava na enfermaria do Hospital
de Carangola, onde passei praticamente um ano para me recuperar das diversas fraturas.
Este acidente mudou completamente a minha rota.
Durante o período no hospital meu amigo Paulo Cotta me levou
um violão e desenhou alguns acordes num papel e passei a compor e a cantar pro pessoal da
casa. Saí do hospital e fui pra Santos fazer fisioterapia. Fiquei morando na casa do meu
primo Zé Ferreira, que me ajudou bastante e através dele cheguei à banda de baile The
Black Cats, mais tarde Blow Up, grandes amigos que foram muito importantes na minha
história musical.
Dos muitos apelidos que eu tive na rua e no futebol, alguns
impublicáveis, um que realmente pegou foi Zegê, que acabou sendo o meu primeiro nome
artístico quando gravei três compactos e um LP na Gravadora Rozemblitt. Através do meu
primo Ferreira e mais dois empresários (Sr Roberto Borroughs e Mario Freitas) cheguei à
gravadora que ficava na Rua Conselheiro Nébias, travessa da Av Duque de Caxias. Lá
conheci o trio vocal carioca The Snacks (Edson Trindade, Altair e Fernando) que moravam na
mesma rua da gravadora e fui morar com eles. Dias depois chegou um amigo deles, vindo dos
Estados Unidos e se juntou a nós. Seu nome: Tim Maia.
Moramos ali por volta de um ano e meio, toda noite era uma
cantoria danada . Eles quatro cantavam todo o repertório black da Motown e eu, pobre
caipira, ficava admirado do que via e ouvia. Nesta época comecei a questionar minhas
composições, em sua maioria muito românticas. Os empresários ao meu redor apostavam
que eu seria um novo Roberto Carlos. Não era o que eu queria. Larguei tudo e fui cantar
Bob Dylan, Roling Stones, Ataulfo Alves e outros, durante oito anos de baile na noite
paulistana. A banda Thoró acabou sendo a mais marcante na minha história de bailes.
Quando a gente tocava Creedence Clearwater Revival, tremiam os salões da periferia de
Sampa. Os anos de baile me deram segurança pra levar minhas músicas aos palcos dos
festivais. Aquele Zegê, menino medroso que se escondia de vergonha atrás dos
amplificadores dos primeiros bailes, já não tinha medo de assumir sua identidade: Zé
Geraldo.

LPZegê
e The Silver Jets - 1970
Lado A
A Dama e o Vagabundo (Zegê)
Hoje Eu Não Preciso de Nada (Zegê)
Tremendamente Apaixonado (Zegê)
Minha Doce Ilusão (The Black Cats)
Os Grandes São Grandes Porque Eu ainda Estou de Joelhos (Zegê)
Eu Tenho o Maior Amor do Mundo (Zegê)
Lado B
Via Anchieta, km 33 (Zegê/Ferreira)
O Mundo Agora é Meu (Zegê)
O Terror de Todo o Norte (Zegê)
Vou Pedir a Deus (Zegê)
Eu Dedico a Você (Zegê)
Minha Esperança é Você (Zegê)

CompactoLado A - A Garota do Show
Lado B - A Bela e a Fera
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